Revista da Azul destaca as belezas do Mar de Minas e Serra da Canastra

Por BRUNO SEGADILHA Fotos de ANGELO DAL BÓ

Imensos paredões de pedra, águas de cor verde-esmeralda, volumosas cachoeiras. Passear pelos cânions de Furnas, em Capitólio, município de Minas Gerais, é observar o poder do homem sobre a natureza. Isto porque tal cenário deslumbrante formou-se apenas na década de 60, quando a hidrelétrica de Furnas desviou os cursos dos rios Grande e Sapucaí, dando origem ao Lago de Furnas, apelidado de “Mar de Minas” por sua grandiosidade.

A região guarda ainda outras belas surpresas. A alguns quilômetros dali, São Roque de Minas e Sacramento são ideais para quem gosta de relaxar em contato com a natureza. Assim como Capitólio, as duas cidades têm partes de seus territórios localizados dentro do Parque Nacional da Serra da Canastra, reserva que reúne ainda áreas dos municípios de São João Batista do Glória, Delfinópolis e Vargem Bonita.

A unidade de preservação ambiental é famosa por abrigar a nascente do Rio São Francisco, além de belas quedas-d’água e fauna e flora riquíssimas. E se a palavra “canastra” lhe trouxe alguma saborosa lembrança, você está certo. Estamos falando da terra onde são produzidos queijos que têm ganhado fama internacional graças ao seu sabor marcante.

Confira a seguir o que você não pode perder em uma viagem à região da Serra da Canastra.

Em janeiro de 1963, as comportas da hidrelétrica de Furnas, no Sul de Minas Gerais, foram fechadas pela primeira vez, transformando para sempre a paisagem local. Casas, fazendas e municípios foram inundados pelos rios Grande e Sapucaí, dando origem a um dos maiores lagos artificiais do mundo, o Lago de Furnas, com cerca de 1.440 km² de área. Para se ter uma ideia, é o equivalente a quase quatro vezes o tamanho da Baía de Guanabara.

A suntuosa obra dividiu opiniões. Por um lado, a inauguração da usina — concebida no final dos anos 1950 por Juscelino Kubitschek e concluída durante o governo de João Goulart — afundou cidades inteiras, alterou de forma abrupta a vida das famílias e causou imenso impacto ambiental ao mudar o curso dos rios. Por outro, evitou que o País, em pleno crescimento, sofresse um colapso energético. Polêmicas à parte, o “Mar de Minas” criou cenários de beleza única nos 34 municípios banhados por ele, entre eles Capitólio, com os imponentes cânions de Furnas.

Antes da criação do Lago de Furnas, a área era composta de fendas e enormes paredões de quartzo cortados por riachos. Com a grande quantidade de água, as tímidas formações hidrográficas ganharam volume e se transformaram em piscinas, fazendo dos cânions corredores por onde passam barcos, lanchas e chalanas.

Os passeios até lá partem da região da Ponte do Rio Turvo, onde ficam atracadas as embarcações que navegam pelo lago. O trajeto começa em um cenário que lembra um mar aberto, até que os barcos se aproximam dos paredões e se inicia uma aventura pelos labirintos aquáticos. Em alguns pontos, quedas-d’água atraem a atenção dos visitantes, como a Cachoeira Lagoa Azul. A dica é fazer uma pausa para um mergulho e sentir o contraste entre o lago morno e as águas geladas que caem do alto das fendas. Um banho revigorante!

Na volta, almoce no Restaurante do Turvo, que fica à beira do rio. A casa oferece ótimas opções de peixes pescados no Lago de Furnas. Não deixe de experimentar a tilápia recheada com catupiry e a traíra recheada com palmito, azeitona e muçarela. Os passeios pelos cânions duram em média seis horas e normalmente começam pela manhã. Por isso, uma opção bastante popular entre os turistas é passar o dia em Capitólio e pernoitar em Passos, a 75 quilômetros dali. A cidade tem boas opções de hotéis e uma agitada vida noturna, com bares, restaurantes e até baladas.

Além de seus famosos cânions, a região de Capitólio tem opções também para quem gosta de um bom banho de cachoeira. O cardápio variado de quedas-d’água inclui as três da Fazenda Trilha do Sol, propriedade que fica a poucos minutos da ponte do Rio Turvo. O ingresso custa R$ 45 e, além do acesso a trilhas e saltos, dá direito a mergulhar na piscina, descansar nas redes e usar os chuveiros que ficam na área de lazer, logo na entrada.

Se você gosta de apreciar a natureza, mas não encara trilhas longas e cansativas, esse é seu lugar: o trajeto até a Cachoeira No Limite, por exemplo, tem apenas 1.200 metros de extensão. Seu escorregador natural faz dela uma das mais populares, ficando atrás apenas da Cachoeira do Grito, símbolo da fazenda. As rochas de quartzito retangulares parecem cortadas artificialmente e você tem a impressão de estar em uma banheira de hidromassagem natural. Vale a pena sentar-se e sentir a força das águas por alguns minutos.

Não deixe de conhecer também a Cachoeira Poço Dourado. Para chegar lá é preciso atravessar um corredor de pedras que dão um tom amarelado à água. Ali, os banhistas empilham as rochas e fazem pedidos. Reza a lenda que eles só serão atendidos se as pilhas se mantiverem intactas, sem cair na hora do pedido.

Criado em 1972, o Parque Nacional da Serra da Canastra abriga alguns dos patrimônios naturais mais importantes do Brasil. É ali que o Rio São Francisco nasce. É lá também que espécies da Mata Atlântica e do Cerrado convivem de forma harmoniosa, fazendo da região um lugar de riquíssima biodiversidade. Sua área engloba parte dos territórios de seis municípios mineiros: Capitólio, São Roque de Minas, Sacramento, Delfinópolis, São João Batista do Glória e Vargem Bonita.

Em São Roque os turistas encontram duas das atrações mais populares: a nascente do São Francisco e a cachoeira Casca d’Anta. O berço do rio fica no alto do Chapadão da Canastra, a 1.200 metros de altitude – é possível percorrer a estrada que chega até lá de bicicleta. Outra opção é subir de jipe e poupar as energias. De qualquer forma, testemunhar o início do Velho Chico é uma experiência emocionante. O rio, um dos maiores do País, surge a partir de uma pequena faixa de terra inundada por águas subterrâneas. Ele ganha volume graças aos vários afluentes de seus 2.830 km de extensão.

Sua primeira queda, de 186 metros, forma uma das cachoeiras mais famosas de Minas, a Casca d’Anta. Foi batizada assim por causa da árvore casca-de-anta, comum por ali e conhecida como remédio para antas enfermas, que se esfregam em seu tronco, graças às propriedades medicinais de sua casca. O salto impressiona pela altura e pela força. Ainda na trilha que leva até sua base, a alguns metros do poço, já é possível sentir um vapor com pequenas gotas. Rio abaixo, onde o fluxo é menos intenso, os fãs de adrenalina aproveitam para praticar o boia cross, passeio com boias corredeira abaixo. Os mais corajosos aventuram-se no rapel em lugares como as cachoeiras da Chinela, do Nego e do Capão Forro.

Além de São Roque, Sacramento também tem um portão de acesso ao parque. Vale a pena programar o passeio para terminar o dia nessa cidade, que tem atrativos como o Parque Municipal Gruta dos Palhares, famoso por sua imensa gruta de arenito basáltico, além da Cachoeira do Azulim, conhecida por suas águas cristalinas.

Outro lugar que merece uma visita é o povoado de São João Batista da Canastra, distrito de São Roque, que tem apenas 120 habitantes – sempre dispostos a um “dedo de prosa” com os forasteiros. Lembre-se de agendar um jantar no restaurante do Seu Vicente, morador mais ilustre dali. Ele serve a refeição na cozinha de sua casa, em cima do fogão a lenha. Saboreie delícias como o porco cozido na própria banha e a farofa de miúdos e embarque nos causos que ele adora contar.

 
 
 

Queijos premiados

 

A receita é simples: leite cru e sal. Após passar por um processo de coagulação, a parte sólida do leite é separada e acomodada em formas, ganhando uma generosa camada de sal. Mas, se o processo é tão básico, o que faz do queijo da Canastra um dos melhores do mundo? As condições climáticas da região ou, como dizem os especialistas, o terroir: o tipo de vaca, o capim que elas comem e até as bactérias presentes no ar da Serra da Canastra. Esses microrganismos são um dos grandes trunfos dos cerca de 800 produtores da região, entre eles Joel e Marly Leite, da Fazenda Caxambu, em Sacramento.

O casal ganhou fama internacional com o queijo Senzala, premiado com as medalhas de ouro e super ouro no Mondial du Fromage 2017, concurso realizado em Tours, na França. A iguaria começou a ser produzida há pouco mais de um ano, quase por acaso. Depois de um curso de especialização, Marly descobriu que há anos rasgava dinheiro ao limpar a casca de seus queijos para livrá-los dos fungos e bactérias que lhe davam uma coloração esbranquiçada.

Com a nova informação, resolveu deixar a natureza seguir seu curso para ver no que dava. Depois de 30 dias de cura, o resultado foi um produto mais macio, de sabor suave e amanteigado. Outro segredo do sucesso, ela conta, são o carinho e a dedicação. “Trabalhamos de domingo a domingo e produzimos entre 50 e 70 peças por dia. É algo que adoro fazer”, diz Marly, sobre o queijo que, a rigor, deve ser chamado de queijo de Araxá, apesar de conservar as mesmas características e o mesmo sabor do queijo da Canastra. Isso porque, desde 2012, a área de sua fazenda passou a ser chamada de microrregião de Araxá. Um detalhe que, atualmente, já não faz tanta diferença.

 POR BRUNO SEGADILHA
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